PLÁSTICOS E MICROPLÁSTICOS: UM DOS MAIORES DESAFIOS AMBIENTAIS
O plástico é um material reconhecido por seu elevado tempo de decomposição, levando até 600 anos para se degradar completamente no meio ambiente. Nos últimos 70 anos aproximadamente 10 bilhões de toneladas de resíduos plásticos foram produzidas, sendo que menos de 10% desse material foi efetivamente reciclado, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). A partir desse cenário, os microplásticos se tornam o novo alarmante mundial, sendo considerados uma das maiores ameaças ambientais e de saúde pública da atualidade.
Equivalente a um centésimo da espessura do fio de cabelo humano, os microplásticos possuem dimensões que variam entre 1 micrômetro a 5 milímetros. Esses poluentes podem ser originados a partir da fragmentação de itens plásticos maiores ou até mesmo, serem produzidos intencionalmente, como o glitter. Além disso, outras fontes desse material incluem esgotos domésticos, fibras de roupas, produtos de higiene, desgastes de pneus e dispersão de aterros sanitários.
A poluição por microplásticos vem gerando impactos ambientais significativos devido ao seu potencial bioacumulativo e sua fácil absorção. Esses poluentes são cada vez mais vistos contaminando humanos e animais, através da ingestão, inalação ou contato direto com a pele, gerando disfunções hormonais, neurológicas e reprodutivas em diversos organismos.
O IMPACTO NA BIODIVERSIDADE E SAÚDE HUMANA
A poluição por microplásticos no ambiente terrestre pode ser de 4 a 23 vezes maior do que nos oceanos, isso acontece pois o solo possui maior capacidade de acumular esses poluentes imprevisíveis. Essa contaminação compromete a estrutura do solo e afeta diretamente a saúde das plantas, resultando em impactos significativos para a agricultura. Uma das consequência é o acúmulo de microplásticos nas raízes, o que pode dificultar a absorção de água e nutrientes, levando ao crescimento vegetal mais lento e à redução da produtividade das colheitas.
Em ambientes aquáticos, os microplásticos são frequentemente ingeridos por organismos marinhos, podendo causar sufocamento, alterações comportamentais, redução da ingestão alimentar e até modificações genéticas. De acordo com dados do Instituto Internacional para a Gestão das Águas, aproximadamente 35% dos microplásticos presentes nos oceanos são originados da lavagem de tecidos sintéticos, sendo uma das possíveis estratégias de mitigação o desenvolvimento de sistemas domiciliares capazes de filtrar essas partículas, prevenindo sua liberação no sistema de esgoto e meio ambiente.

Nos últimos anos, os microplásticos foram identificados em mais de 1.300 espécies animais. Em seres humanos, essas partículas já foram detectadas em órgãos e tecidos como pulmões, sangue, cabelo e unhas, esses poluentes são incorporados ao organismo humano por múltiplas vias, incluindo a ingestão de alimentos contaminados. Estudos conduzidos na Universidade Estadual de Nova York, em Fredonia, analisaram 12 marcas de cerveja fabricadas com água dos Grandes Lagos da América do Norte e constataram a presença de pequenas partículas de plásticos em todas as amostras avaliadas.
A presença desses poluentes tem sido associada a efeitos adversos à saúde humana. No sistema cardiovascular, a presença de microplásticos no sangue e nas artérias podem contribuir para o aumento do risco de infarto e AVCs. Já no sistema respiratório, a exposição contínua pode provocar processos inflamatórios, agravando quadros de asma, pneumonia e elevando o risco de câncer de pulmão.
Embora os maiores emissores de microplásticos estejam associados a atividades industriais e a serviços correlatos, há algumas ações que os consumidores podem adotar para diminuir a quantidade de microplásticos ingeridos e emitidos ao meio ambiente, como:
- Evitar roupas feitas por fibras sintéticas e optar por fibras naturais;
- Usar filtros de microfibras ao lavar as roupas;
- Utilizar garrafas térmicas para o armazenamento de água;
- Não armazenar alimentos em recipientes de plásticos;
- Evitar a utilização de sacolas plásticas e substituir por sacolas ecológicas;
- Analisar lista de ingredientes que compõem os produtos de higiene pessoal.
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DETECÇÃO E DEGRADAÇÃO: CAMINHOS PARA A MITIGAÇÃO DOS MICROPLÁSTICOS
A mitigação dos impactos ambientais causados pelos microplásticos depende, inicialmente, de um conhecimento preciso sobre suas fontes de origem. Nesse contexto, a Química desempenha um papel fundamental, por meio da aplicação de métodos de identificação e detecção dessas partículas.
De modo geral, determinar o que é um microplástico envolve a combinação de técnicas analíticas complementares. A caracterização química, realizada por métodos espectroscópicos, permite identificar o tipo de polímero presente, enquanto a caracterização física, por meio de técnicas de microscopia, possibilita a análise do tamanho, da forma e da morfologia das partículas, confirmando sua natureza plástica.
O desenvolvimento de tecnologias que promovam a degradação eficiente e segura dos microplásticos é considerado um dos maiores desafios da Química aplicada à sustentabilidade. Entretanto, há alguns processos naturais que envolvem a quebra das cadeias poliméricas, as principais ações são chamadas de fragmentação mecânica, química e biológica. Quando essas fragmentações acontecem de forma combinada, ocorre a degradação considerável das partículas.
A fragmentação mecânica emerge a partir de forças físicas, como atrito, impacto e agitação. A fragmentação química envolve reações como oxidação térmica e hidrólise, geralmente induzidas pela radiação UV. Já a fragmentação biológica resulta da ação de microrganismos e enzimas capazes de colonizar a superfície dos microplásticos.
Esses processos promovem o enfraquecimento das cadeias poliméricas e a quebra dos polímeros, transformando microplásticos em partículas ainda menores, entretanto, não os eliminam completamente. A eliminação dos microplásticos ocorre quando há degradação profunda das cadeias poliméricas até compostos simples, como CO₂ e H₂O, processo chamado de mineralização. Esse nível de degradação é raro no ambiente natural e, atualmente, é observado principalmente em processos químicos controlados, que ainda apresentam desafios ambientais, energéticos e de escala.
ECONOMIA CIRCULAR E RESPONSABILIDADE CORPORATIVA NO ENFRENTAMENTO DOS MICROPLÁSTICOS.
A economia circular é reconhecida como uma das abordagens mais eficazes para enfrentar o desperdício e a poluição por plásticos, ao mesmo tempo em que gera benefícios econômicos, ambientais e sociais. Esse conceito propõe que os materiais permaneçam em uso pelo maior tempo possível, reduzindo perdas, emissões e a geração de resíduos, incluindo os microplásticos.
A Agenda 2030 para os Plásticos nas Empresas é uma iniciativa global liderada pela Fundação Ellen MacArthur. Ela destaca a transição para a economia circular a partir de três pilares complementares: a ação individual das empresas sobre seus próprios produtos e processos; a ação colaborativa, voltada à superação de desafios estruturais que não podem ser resolvidos de forma isolada; e a defesa coletiva de políticas públicas eficazes e acordos globais para a redução da poluição plástica.
Atualmente, mais de mil empresas já estão alinhadas a essa visão, demonstrando que a transformação do setor é necessária e urgente.

Repensar o uso do plástico e, consequentemente, a formação de microplásticos, no ambiente corporativo envolve iniciativas estratégicas que incluem a substituição de materiais e o redesign de produtos e processos. Algumas ações fundamentais incluem:
- Utilizar materiais mais sustentáveis, como vidro, metal, papel ou bioplásticos;
- Desenvolver sistemas de refil ou embalagens retornáveis;
- Criar programas de recolhimento de embalagens pós-consumo, como o programa Boti Recicla, do Grupo Boticário;
- Investir em infraestrutura de gestão de resíduos, como instalações de reciclagem e programas de compostagem;
- Reduzir o uso de filmes plásticos e outras embalagens de transporte, otimizando a eficiência logística;
- Banir itens descartáveis de uso interno, como copos, talheres e canudos plásticos.
A raiz do problema dos microplásticos está na produção, no uso e no descarte inadequado de materiais poliméricos, associados a modelos produtivos pouco eficientes. Nesse cenário, a Química se torna elemento central possibilitando novas alternativas, um exemplo desse potencial é a iniciativa da Braskem, que desenvolveu microfibras a partir de copos plásticos descartáveis para aplicação na indústria têxtil, além de estabelecer metas para a ampliação do uso de conteúdo reciclado em seus produtos.
Esse tipo de inovação evidencia que a aplicação do conhecimento químico é fundamental para reduzir a geração de microplásticos, mitigar impactos ambientais e promover modelos produtivos mais sustentáveis.
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Texto escrito por Raissa Araujo Souza.







